Sete
de cada 10 mulheres em situação análoga a escravidão são negras
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| © DIVULGAÇÃO/TV BRASIL |
“Fui
criada num colégio de freira que meus pais morreram. Conversaram com o juiz e
apareceu na frente do juiz uma senhora que estava procurando uma menina. Ficou
sabendo que eles estavam dando uma menina para eles cuidarem, trabalhar, né? E
foram lá no colégio e me pegaram. Aí eu vim para São Paulo com eles.
“Essa que você ouviu é a Araci do Amaral. Órfã, foi levada para
uma casa de família, onde viveu, durante décadas, escravizada. “Nos primeiros
dois meses eu recebi, mas depois eu não recebi mais".
E o
que eles falavam para a senhora quando não pagavam?
"Não
falavam nada, não pagavam. Simplesmente não pagavam.”
Leonardo
Sakamoto, diretor da ONG Repórter Brasil, faz uma leitura dessa triste
realidade, tão enraizada na sociedade brasileira.
“A
menina que veio do interior, de um conhecido, de uma família de conhecidos,
fugindo da fome, fugindo da dificuldade, veio para a região, para uma cidade, e
lá foi acolhida por uma família, sob a justificativa de que garantiria-se um
futuro para ela, mas o futuro a ela, condenado, era de trabalhar para comer e
para ter a hospedagem.”
Shakti
Borela é Coordenadora-Geral de Fiscalização para Erradicação do Trabalho
Análogo ao de Escravidão do Ministério do Trabalho e Emprego. Ela traça o
perfil dessas mulheres.
“Mais
da metade dessas mulheres têm no máximo a quinta série de escolaridade, 24%
delas são analfabetas e 72% delas são pretas ou pardas, ou seja, são mulheres
negras.”
A
realidade vivida por Araci — e por tantas outras — é dura de aceitar pela sua
crueldade. Certa vez, ao reclamar de dores nos dentes, a patroa ordenou que ela
os arrancasse.
“Ela
falou: então, você vai fazer isso. Aí, tive que tirar todos os meus dentes.”
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| Araci do Amaral, vitima de trabalho escravo doméstico, ainda criança, depois de ficar orfã. Foto: Divulgação/TV Brasil |
Falei,
meu deus, o que é isso? Aí eles falaram que era da Polícia Federal, que era
para mim abrir a porta. Eu falei, mas eu não posso, eles estão dormindo. Mas aí
ele falou, mas tem que abrir, a Polícia Federal tem que abrir.”
Araci
foi resgatada e os ex-patrões condenados a pagarem um salário mínimo por mês,
além de R$ 500 mil de indenizações. No entanto, Araci, mais uma vez, vê negados
seus direitos: sem receber nada, espera enquanto a justiça caminha a passos
lentos. Roque Patussi, diretor do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante, em
São Paulo, acompanha o drama de Araci.
“Ela
viveu uma vida de medos e ela continua com medo, só que o medo agora é de não
ter onde morar. O medo agora é de não ter o que comer amanhã. “
Para
fazer denúncias sobre trabalho escravo disque 100. Os relatos são anônimos. em
caso de risco imediato, acione a polícia no 190.
Por:
Marieta Cazarré/Rádio Nacional
Com
Colaboração de Ana Graziela Aguiar e Ana Passos, Produção de Claiton Miranda e
Patrícia Araujo e sonoplastia Egberty Martins.
Fonte:
Radioagência Nacional


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